O canto torto de Belchior : conheça 4 músicas do artista com referências literárias

Outubro é um mês especial para a cultura nordestina: além de ser o mês de comemoração ao dia do nordestino, dia 08, também é o mês do aniversário do artista cearense Belchior. O cantor faria 75 anos no próximo dia 26.

Nascido em Sobral, Antônio Carlos Belchior sempre foi estudante da vida que queria dar. Estudou canto e piano na infância, foi estudante do Liceu do Ceará, seminarista franciscano no mosteiro de Guaramiranga e estudante de medicina na Universidade Federal do Ceará. A complexidade de suas experiências o levou ao fascinante e inusitado destino de ser um dos principais letristas da música popular brasileira.

Belchior durante exposição de suas pinturas no hall da Biblioteca Central da Unifor em março de 2006 (Acervo fotográfico da Unifor).

Apaixonado por filosofia, letras e artes em geral, Belchior imprimiu bem nas suas obras suas influências. De Carlos Drummond de Andrade, passando por Edgar Allan Poe e Dante Alighieri, o eu-lírico migrante nordestino canta a cultura popular parafraseando clássicos literários, numa ode à vida do homem comum, às pessoas cinzas, normais que, talvez, tenham histórias iguais à sua.

A seguir, confira algumas das canções de Belchior com importantes referências literárias e conheça um pouco mais sobre a obra do nosso rapaz latino-americano.

1 — A Palo Seco (Belchior, 1974)

A canção traz uma forte mensagem anti-imperialista, exaltando a latinidade, sobretudo, da América do Sul, em tempos de forte período de repressão militar. “A palo seco” é uma expressão espanhola que significa “franco, direto, sem rodeios” e é título do poema do pernambucano João Cabral de Melo Neto. Segundo Andrade e Lima (2021, p. 2015): “No poema cabralino, a palo seco 'não é um cante a esmo: exige ser cantado com todo o ser aberto', o cante está ligado ao ser, à projeção, à representação da dor, do sofrimento, da distopia, do cante cantado sob sol a pino, intimamente ligado ao ser, ao processo de emancipação, de libertação e criação”.

"O cante a palo seco
é um cante desarmado:
só a lâmina da voz
sem a arma do braço;
que o cante a palo seco
sem tempero ou ajuda
tem de abrir o silêncio
com sua chama nua".

(João Cabral de Melo Neto)

Belchior se apropria do cante de Cabral para gritar o desespero de uma juventude sem perspectivas numa época sombria da história da América Latina. “A palo seco” de Belchior é o grito urgente, agoniado, “torto feito faca”, de alguém que observa consciente e aflito a realidade, no meio de tanta apatia coletiva.

2 — Velha roupa colorida (Alucinação, 1976)

Uma das mais conhecidas canções de Belchior. A letra traz a eterna dicotomia entra o velho e o novo, e a necessidade natural de que tudo se renove para a plenitude das coisas. Na canção, Belchior faz menção aos diferentes significados de pássaros-pretos na cultura pop: "The Raven", de Edgar Allan Poe; "Blackbird", dos Beatles, e; "Assum Preto", de Luiz Gonzaga.

"The Raven" ou "O Corvo", em português, é um dos poemas mais famosos do poeta americano Edgar Allan Poe. Nele, o corvo é um mensageiro sombrio que anuncia que a amada do eu-lírico não voltará nunca mais, enquanto repete “nevermore” a cada questionamento deste.

Em “Blackbird”, canção atribuída a John Lennon e Paul McCartney, o pássaro negro simboliza a luta contra a segregação racial nos Estados Unidos.

E a canção “Assum Preto”, de Luiz Gonzaga e Renato Teixeira, conta a história da lenda cearense do assum preto, a qual se furara os olhos do pássaro para que, pelo sofrimento, cantasse melhor.

Os três pássaros-pretos são citados na mesma estrofe, enquanto o eu-lírico revive o personagem do poema "The Raven", ao questionar sobre seu destino:

“Como Poe, poeta louco americano / Eu pergunto ao passarinho / Blackbird, assum preto, o que se faz? /Raven, never, raven, never, raven, never, raven, never, raven /Assum preto, pássaro preto, blackbird, me responde: Tudo já ficou atrás / Raven, never, raven, never, raven, never, raven, never, raven / Blackbird, assum preto, pássaro preto, me responde: O passado nunca mais”.

3 — Divina Comédia Humana (Coração Selvagem, 1977)

A música dialoga com o poema épico do italiano Dante Alighieri, "Divina Comédia". O poema é dividido em três partes: “Inferno”, “Purgatório” e “Paraíso”. De acordo com Souza e Silva (2019, p. 8), as referências estão implícitas da seguinte maneira: 

Inferno: ‘Estava mais angustiado que um goleiro na hora do gol’, este verso inicial faz uma tradução do que seria os tormentos infernais, principalmente com a palavra “angustiado” [...] porque o tormento que é narrado por Dante, no início da obra dele, recai também na canção, cujo discurso do narrador se encontra atormentado, martirizado em um afã infernal íntimo, configurando-se como uma intertextualidade implícita; 

Purgatório: ‘Aí um analista amigo meu disse que desse jeito, não vou ser feliz direito/ Porque o amor é uma coisa mais profunda que um encontro casual’. Já nestes versos, observamos que a palavra ‘analista’ seria uma metáfora para o ‘purgatório’ [...] em outros termos, seria a análise de consciência que o narrador tem de fazer para a expiação de suas faltas cometidas; 

Paraíso: “Ora direis, ouvir estrelas, certo perdeste o senso, eu vos direi, no entanto: / Enquanto houver espaço, corpo e tempo e algum modo de dizer não, eu canto.” Esses últimos versos [...] Belchior dialoga com o texto de Alighieri [...] sobretudo com a palavra “estrelas” para relacioná-la com o “paraíso”, novamente de modo sutil e implícito [...]. Em suma, metaforicamente ele termina a letra da canção com as palavras “eu canto”, ou seja, alegra-se, festeja, fica feliz: celebra a ascensão ao paraíso, aos céus".

Os dois primeiros versos desta estrofe são do “Soneto VIII” do poeta parnasiano Olavo Bilac:

“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto…”

4 — Populus (Coração Selvagem, 1977)

A canção traz uma crítica social onde retrata como a classe operária (populus = povo em latim) é vista como “cães” pela burguesia. Na canção, Populus é “um escravo indiferente que trabalha / e por presente / tem migalhas sobre o chão”. A figura de Populus é a de um ser impotente na inércia das relações de poderes as quais já foram submetidos seus antepassados e que, não importa o quanto ele espume, tudo será em vão. A letra cita o poema de Carlos Drummond de Andrade, “Congresso Internacional do Medo” para se referir ao fim de Populus:

“[...] cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte,
depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas”.

O poema também é referência para a canção “Pequeno Mapa do Tempo”, do mesmo álbum.
“Populus”, que deveria ter sido lançada em 1976,  foi censurada pela ditadura militar.

Confira no acervo da Biblioteca Central as obras disponíveis de Carlos Drummond de Andrade, Edgar Allan Poe, Dante Alighieri, João Cabral de Melo Neto entre outros em Unifor Online < Biblioteca < Biblioteca Digital < Busca Integrada.

Referências
 

ALENCAR, R. B.; LIMA, S. A. O. A palo seco: cante e vida, João Cabral e Belchior. Macabéa, [s.l], v. 10, n. 5, jul./set. 2021. 211 - 223.

CARLOS, J. T. “Populus”, meu cão. Justificando: mentes inquietas pensam direito, [s.l], 12 de dezembro de 2019. Disponível em: https://www.justificando.com/2019/12/12/populus-meu-cao/. Acesso em: 08 out. 2021.

D’ANGELO, L. B. 10 músicas de Belchior que fazem referência a clássicos da literatura. Notaterapia, [s.l], 02 maio 2017. Disponível em: https://notaterapia.com.br/2017/05/02/10-musicas-de-belchior-que-fazem-referencia-a-classicos-da-literatura/. Acesso em: 08 out. 2021.

HOLANDA, C.; COSTA, I.; SAMPAIO, M. Belchior 70 anos de vida e poesia: uma biografia do trovador. O Povo, Fortaleza, 26 out. 2017.  Disponível em: https://especiais.opovo.com.br/belchior70anos/. Acesso em: 08 out. 2021.

MEDEIROS, J. O claustro: o relato dos três anos em que Belchior viveu em um mosteiro. Revista Piauí, São Paulo, 02 maio 2017. Disponível em:   https://piaui.folha.uol.com.br/o-claustro/. Acesso em: 08 out. 2021.

RODRIGUES, T. Belchior na Divina Comédia de Dante. HH Magazine: humanidades em rede, [s.l], 22 nov. 2018. Disponível em: https://hhmagazine.com.br/belchior-na-divina-comedia-de-dante/. Acesso em: 08 out. 2021.

SANTOS, L. M. S. A divina comédia de um rapaz latino-americano: a influência da literatura na obra de Belchior. Revista Crioula, São Paulo, v. 26,  n. 1, 2020, p. 95 - 106. Disponível em:  https://www.revistas.usp.br/crioula/article/view/177234. Acesso em: 08 out. 2021.

SILVEIRA, M. P. O significador de Blackbird, clássico dos Beatles. Letras, [s.l], 4 jun. 2020. Disponível em: https://www.letras.mus.br/blog/blackbird-significado/. Acesso em: 08 out. 2021.

SOUZA, E. R.; SILVA, U. C. C. A intertextualidade nas canções da MPB: o conhecimento que canta e dança. CONEDU, [s.l], 2019. Disponível em: http://www.editorarealize.com.br/editora/ebooks/conedu/2019/ebook2/PROPOSTA_EV127_MD4_ID13469_25092019090715.pdf. Acesso em: 08 out. 2021.


Thailana Tavares — Bibliotecária do Setor de Processamento Técnico